Muitas empresas acreditam estar protegidas porque fazem backup dos seus dados. Copiam arquivos para um disco externo, enviam informações para a nuvem ou mantêm servidores espelhados. A sensação de segurança existe até o momento em que um incidente realmente acontece. Quando o ransomware criptografa todos os sistemas, quando o servidor principal queima ou quando os dados precisam ser restaurados com urgência, a pergunta deixa de ser ‘temos backup?’ e passa a ser ‘quanto tempo vai demorar para voltar ao normal?’. Essa diferença define se a empresa sobrevive ao desastre ou enfrenta prejuízos irreversíveis.
A ilusão do backup tradicional
O backup tradicional cumpre uma função importante: mantém uma cópia dos dados. Se um arquivo é deletado acidentalmente, ele pode ser recuperado. Se uma planilha é corrompida, a versão anterior está salva. Mas o backup, por si só, não garante a continuidade do negócio. Empresas que descobrem essa diferença tarde demais enfrentam paralisações prolongadas, perda de clientes e impactos financeiros devastadores.
No contexto atual, onde ransomware é uma ameaça constante, backups que não são imutáveis e que não são testados regularmente são, na prática, inexistentes. Invasores sabem que empresas mantêm cópias de segurança. Por isso, parte do ataque consiste em localizar e destruir os backups antes de criptografar os sistemas principais. Se o backup está na mesma rede, acessível com as mesmas credenciais, ele será comprometido junto com o resto da infraestrutura.
Além disso, muitas empresas não testam seus backups. Acreditam que, porque a rotina de cópia está rodando, tudo estará acessível quando necessário. Na hora da crise, descobrem que os arquivos estão corrompidos, que as senhas de acesso foram perdidas ou que o processo de restauração leva dias em vez de horas.
RTO e RPO: as métricas que definem a estratégia
A decisão sobre a estratégia de backup não deve ser técnica, mas sim de negócios, baseada em duas métricas fundamentais: RPO (Recovery Point Objective) e RTO (Recovery Time Objective).
RPO (Objetivo de Ponto de Recuperação) refere-se à tolerância da empresa à perda de dados. Em outras palavras, quanto de trabalho a empresa pode perder sem comprometer sua operação? Se o backup é feito apenas à meia-noite e um incidente acontece às 17h, um dia inteiro de produção será perdido. Se isso é aceitável, o RPO é de 24 horas. Se não é, a empresa precisa de backups mais frequentes, como snapshots contínuos a cada 15 minutos ou a cada hora.
RTO (Objetivo de Tempo de Recuperação) refere-se à tolerância da empresa ao tempo de inatividade. Quanto tempo a operação pode ficar parada? Se o servidor queima e o backup está apenas na nuvem, baixar 2 terabytes de dados via internet pode levar dias. Se a empresa não pode ficar offline por mais de 4 horas, essa estratégia é inadequada. Nesse caso, é necessária recuperação local, como appliances de backup que permitem restauração instantânea.
Estratégias de proteção e seus impactos
Diferentes estratégias de proteção atendem a diferentes necessidades. A escolha depende do RPO e RTO tolerados pela empresa, do orçamento disponível e da criticidade dos sistemas. A seguir, as principais abordagens:
- Backup tradicional (fita ou HD externo): RPO de 24 horas ou mais, RTO de dias. Custo baixo, mas alto risco operacional. Se o servidor falha, a empresa fica parada por tempo indeterminado enquanto aguarda hardware novo e restauração manual.
- Backup em nuvem simples: RPO de 4 a 12 horas, RTO de horas a dias, dependendo da velocidade da internet. Custo médio. Adequado para dados não críticos, mas inadequado para sistemas que exigem disponibilidade imediata.
- Backup híbrido (local + nuvem imutável): RPO de 15 minutos a 1 hora, RTO de minutos. Mantém um appliance local para restauração rápida e envia cópia imutável para a nuvem para proteção contra ransomware e desastres físicos. Oferece o melhor equilíbrio custo-benefício para a maioria das PMEs.
- Alta disponibilidade (cluster ou replicação em tempo real): RPO quase zero, RTO de segundos. Custo alto. Indicado apenas para sistemas de missão crítica onde qualquer parada gera prejuízos significativos.
Para a maioria das pequenas e médias empresas, o modelo híbrido oferece a melhor relação entre custo, segurança e velocidade de recuperação. Ele garante que a empresa volte ao ar rapidamente em caso de falha local e mantém proteção contra ataques de ransomware, já que a cópia na nuvem é imutável e não pode ser alterada por invasores.
Testes de restauração: a única garantia real
Um backup que nunca foi testado é uma promessa não verificada. Empresas que descobrem falhas na hora da crise enfrentam prejuízos que poderiam ter sido evitados com simulações periódicas. Testar a restauração significa verificar se os dados estão acessíveis, se o processo funciona conforme o esperado e se o tempo de recuperação está dentro do RTO definido.
A prática recomendada é realizar testes trimestrais de restauração completa. Isso não significa apenas recuperar alguns arquivos aleatórios, mas sim simular um cenário de desastre total: servidor principal indisponível, necessidade de reconstrução completa do ambiente. Esse exercício revela gargalos, identifica falhas e treina a equipe para agir com rapidez em uma situação real.
Além disso, os testes garantem que as credenciais de acesso aos backups estão corretas, que as configurações de rede estão documentadas e que existe um plano claro de recuperação. Sem testes, o backup é teoria. Com testes, ele é garantia.
Backup imutável: a defesa contra ransomware
Uma das características mais importantes de um sistema de backup moderno é a imutabilidade. Backups imutáveis não podem ser alterados ou deletados por ninguém, nem mesmo por administradores do sistema, durante um período predefinido. Isso impede que invasores destruam as cópias de segurança durante um ataque de ransomware.
A lógica é simples: se o atacante consegue criptografar os sistemas principais e deletar os backups, a empresa fica sem opção além de pagar o resgate. Com backups imutáveis, mesmo que o invasor tenha acesso administrativo completo, as cópias de segurança permanecem intactas e a empresa pode restaurar seus dados sem negociar com criminosos.
Essa proteção adicional tornou-se essencial no cenário atual. Empresas que mantêm apenas backups convencionais, acessíveis pela mesma infraestrutura comprometida, enfrentam riscos elevados. A migração para backups imutáveis é uma das medidas mais eficazes para reduzir a vulnerabilidade a ataques.
Continuidade como planejamento estratégico
Proteção de dados não é apenas uma questão técnica. É uma decisão estratégica que define a resiliência da empresa diante de crises. Organizações que planejam sua continuidade com base em métricas claras, testam regularmente suas estratégias e mantêm backups imutáveis ganham vantagem competitiva. Elas não apenas sobrevivem a incidentes, mas mantêm a confiança de clientes, parceiros e investidores ao demonstrar capacidade de recuperação rápida.
Empresas que tratam backup como rotina técnica, sem revisar periodicamente suas estratégias e sem alinhar RTO e RPO às necessidades reais do negócio, acumulam riscos silenciosos. Quando a crise chega, descobrem que a proteção era ilusória. A diferença entre ter cópia e ter continuidade é, no fim, a diferença entre sobreviver e desaparecer.



